DELIVERY

“Abandono de um
ser: seria maior
que o seu deserto?”
Manoel de Barros

Queres que eu
me entregue,
que não finja
- como? -
que eu te ame
amo senhor
eu tua senhora
- agora?
Qual entrega?
Delivery de intenções?
Tu me confundes.
Não sei entregar eu quem
desconheço.

Em atenção à doação,
espaço interior
oco, vazio
no ato de receber-te,
esse vácuo
- permita-me –
cálice, vaso, moringa,
não se pode entrega
pois receptáculo.

Não.
Não me entrego.
Recebo-te
de alma e pernas abertas
no reduto
que pode ser-te,
se nele te permitires
entrar,
inseminar-te.

Amar fêmeo não é feito de entrega -
como alienar um deserto
íntimo,
expectativa côncava de
complemento?   

Querer
fêmea
afirma-se
abrindo espaços
vagos
para futuros momentos
grávidos.
Aquele que vem
precisa compor sua
presença.


Ione Mattos
15/01/2012

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